vida assim
As paredes eram brancas e deixavam o quarto muito pequeno. Ela tinha saído para comprar pôsteres e o apartamento a esperou como se não houvesse mais o que se fazer. E não havia mesmo, era um apartamento para uma pessoa, sem sala nem cozinha, apenas um ambiente multiuso. O banheiro era separado e media dois metros por um e meio. O azulejo era branco e o rejunte cinza embolorado. Nada no flat era decorado, por isso não se distraía sozinho. Era preciso um morador dentro do apartamento para ele poder se sentir algo presente. Sem decoração, um apartamento está à mercê de seu dono.
Ela voltou com dois pôsteres enrolados no formato de um longo tubo de papel. Ela tirou o gorro e o casaco pesado. Atirou-os perto do aquecedor. O ambiente estava morno e seco, o contrário do mundo lá fora. O apartamento começou a existir e ela começou a moldar sua personalidade ao aquecer água para uma comida em pó e descascar verduras frescas e apáticas. Colocou música.
O apartamento gritou a campainha: ding-dong. A porta se abriu e um rapaz entrou. Ela o ajudou a tirar seu casado e ele olhou bem em volta. “Que apartamento pelado!” Ora, tudo bem que o rei está nu, mas não precisa apontar, pensou o apartamento. Ela não disse nada, apenas resmungou que era temporário. A comida em pó estava pronta, mas ele já jantou. O apartamento se encheu de alegria e de manteiga derretida.
O rapaz ajudou-a a desenrolar seus pôsteres. Um deles era de um filme italiano, de um cineasta famoso. O outro era uma foto linda tirada por um fotógrafo conhecido. O rapaz olhou bem os dois pôsteres e escolheu as paredes apropriadas. Ela concordou. E ela comeu enquanto ele pendurava-os. O apartamento ganhou duas distrações.
“Por que você está ouvindo música francesa?” Ela nem sorriu, nem ficou séria, apenas se perdeu em lembranças. “Mas você nunca foi para a França. Não conhece nenhum francês.” Era verdade. Uma saudade imensa invadiu seu coraçãozinho remendado e ela disse, entre verduras e instantâneos, que a saudades era do que poderia ter sido e não foi. E esta saudades é a mais saudável de todas, porque é apenas uma nostalgia, um raio de sol quente num dia frio, uma lufada de ar acariciando o fim de tarde, era os pés com a grama entrando entre os dedos.
Ela o convenceu. O apartamento se preocupou com as poucas roupas e as não-distrações, mas o rapaz a convidou para a feira de flores amanhã e para o bazar de móveis antigos na semana que vem. Ela concordou e pegou a caixinha de madrepérola debaixo da janela fechada. Percorreu com a unha bem feita, vermelha e lustrosa, todo o contorno em relevo da caixinha. Abriu-a e encontrou as notas enroladas cuidadosamente para caber ali. O rapaz perguntou porque não guardava num banco e ela respondeu que era para o apartamento se sentir valorizado. Todo o apartamento se encheu de ternura.
As notas eram suficientes para alguns vasinhos de flores manhosas, um armário protetor e cadeiras divertidas. O rapaz pediu para fumar e abriu a janela. Aquele frio preguiçoso do fim da tarde invadiu a sala, que era cozinha, que era quarto, que era tudo que ela tinha. Ela pediu pra ficar um pouco sozinha e o rapaz saiu. Ela adormeceu entre as poucas lágrimas, de pé, segurando a caixinha entre as mãos serenas e apoiando-se nas paredes agora com vida – a vida dos pôsters. A música francesa tocou até o final do disco. Depois, parou.
