A menina-tronquinho – ou a vida no papel em branco
A menina se chamava Magali. Ia sempre ao mercado municipal com seu pai e naquele ambiente claro-escuro - cheio de cheiros e sacos de leguminosas - enfiava sua mãozinha gorducha por entre os grãos de feijão. Cada grão parecia acariciar sua pele infantil e suas unhas desbravavam o terreno desconhecido do grande conglomerado de bolinhas pretas, marrons, brancas, verdes e vermelhas.
Um dia, Magali enfiou suas mãozinhas até onde a pressão dos feijões agüentasse. Sentiu um movimento e viu, morando no meio dos grãos, dezenas de aranhas de patas finas e longas e corpo listrado – rosa choque e amarelo vibrante. Ao verem o corpo de Magali invadindo seu território, cada aranha assustada picou os braços e mãos em pontos diferentes e eqüidistantes. Magali sentiu dor, mas manteve os braços no saco de feijão, imobilizada pela beleza das aranhas e pelo trabalho fascinante que aquelas criaturinhas desempenhavam juntas. Picaram e se distraíram – trabalho cumprido, não há porque prestar atenção no gigante desconhecido.
O pai de Magali a chamou para irem embora e eles foram. Magali não contou nada do episódio das aranhas. Não achou necessário, porque as picadas não ardiam mais. Depois de alguns dias, os dois braços de Magali caíram, azuis, mortos. Ela pensou que eles iam nascer de novo, esperou por algumas horas e nada aconteceu. A gangrena foi generosa e cortou cada braço sem dor.
Os pais da criança ficaram preocupados, no início, pela falta de membros da filha, todavia se acostumaram logo com a idéia. Magali aprendeu a usar os pés para manejar os talheres e a escova de cabelo. Ficaram aliviados por não terem que enfrentar tal desafio junto a ela. Magali tornou-se independente horas depois que os braços caíram e isso facilitou a convivência familiar.
Magali não tinha muito amigos e por isso a perda não foi grande. Os poucos antigos se afastaram e os novos nunca apareceram na vida da menina. Havia um rapaz com perna mecânica que estudava na sala ao lado da sala de Magali. Ele sempre desviava o caminho quando ela ia confrontá-lo no recreio. Ele tinha vergonha de ser visto com a menina-tronquinho.
Menina-tronquinho era o apelido de Magali. Nenhuma criança foi cruel o bastante para dar tal alcunha para a menina. Crianças são cruéis, mas somente quando querem ou quando a dão um bom motivo. A solidão e infortúnio de Magali além do necessário para um apelido maldoso. Menina-tronquinho era como Magali se auto-referia. Ela era a menina-tronquinho porque nunca negou sua condição.
Tinha até certo apreço por não possuir braços, isso deixava-a solitária e sem qualquer obrigação na vida. Tudo que ela construísse na vida ia fazer dela uma vencedora. Se ela desistisse de buscar qualquer ganho, todos aceitariam que sua condição a impediu. Assim, o mundo estava aberto e em branco a sua frente. Sem cobranças, aprovações ou pessoas. Era somente Magali e o mundo. Ela era invencível.
Porém, Magali se acomodou. Quando teve nitidez de que a decisão era dela, resolveu adiá-la. O mundo não ia acabar, nem Magali. Sentou, desistiu de usar os pés, parou de comer e de se pentear. Os seus pais não perceberam quando ela foi se petrificando. Magali virou um objeto decorativo da casa. Todas as visitas elogiavam e perguntavam de onde veio estátua tão inusitada – uma menina sem braços, sem boca e com os cabelos arrepiados.
Os pais de Magali nunca souberam responder. De que viagem trouxemos este objeto exótico, meu bem? Adônis, querido, de Marrocos, Madagascar, sei lá. Brindaram o champagne.
